António Filipe

A mirra. Um presente para Jesus.

“E entrando na casa, acharam o Menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra” Mateus, 2: 11

Assim se cumpria a profecia:Os reis de toda a terra hão-de adorá-Lo”Salmos, 72:11

Dos três presentes que os Reis Magos ofereceram a Jesus, a mirra parece ser aquele cujo significado é mais difícil de de explicar. O ouro pelo seu valor, o incenso que estamos habituados a ver em cerimónias litúrgicas, como sinal de reverência, parecem-nos ofertas que compreendemos mais facilmente, porque nos são mais familiares. Mas porquê a mirra? Qual seria o seu significado? Como era utilizada, e para quê?

A mirra é a resina extraída de uma planta do género Commiphora, a Commiphora Myrrha. Existem cerca de duzentas plantas do mesmo Género, ainda que só de algumas se extraiam resinas.

Wellcome Images : Commiphora myrrha. Cristais extraídos da planta.

A sua utilização é conhecida desde a antiguidade em diversas aplicações, e é originária do nordeste africano (Sudão, Etiópia e Somália) e do sul da península arábica.

Djibouti – 1990 – Commiphora Mirra

Os hebreus usavam a mirra para ungir os vasos sagrados do templo, e a sua utilização cerimonial pode explicar o facto de fazer parte dos presentes levados a Jesus, já que todos os elementos tinham um significado: o ouro era um presente para os reis, o incenso para os sacerdotes e a mirra para os profetas. Significaria, portanto, que os Reis Magos acreditavam que estavam perante o rei do povo hebraico, o profeta porque esperavam, conforme estava escrito.

A referência bíblica mais antiga à mirra é feita no livro de Génesis (37: 25) “Depois sentaram-se para comer. Levantando os olhos, viram uma caravana de Ismaelitas que vinha de Galaad. Os seus camelos estavam carregados de especiarias, bálsamo e mirra, que levavam para o Egipto”.

Para além dos hebreus , também os babilónios e assírios utilizavam a mirra durante as cerimónias religiosas. Muitas vezes misturada com outras essências como o incenso e o bálsamo. É possível que a sua utilização pelo povo hebreu tenha sido consequência da permanência no Egipto, durante o longo exílio, onde poderão ter tomado contacto com algumas práticas de culto, porque aí era já muito usada, quer no culto, quer noutras aplicações como veremos.

A palavra “mirra” deriva do aramaico “murr” que significa “amargo”.

Há uma lenda, que liga a mirra à mitologia, segundo a qual Teias (ou Ciniras), rei da Síria, tinha uma filha, Mirra os Esmirna, que quis competir em beleza com a deusa do amor, Afrodite. Esta, resolveu aplicar-lhe um castigo, concebendo uma relação incestuosa com o próprio pai. Com o auxílio da sua aia, Hipólita, conseguiu enganar Teias, ficando com ele durante doze noites consecutivas. Na última noite o rei percebeu o que se estava a passar e perseguiu a filha para a matar. Mirra colocou-se sob a protecção dos deuses, que a transformaram numa árvore, que tem o seu nome. Meses depois, a casca da árvore começou a inchar e no décimo mês nasceu Adónis.

Wellcome Library, London. Ninfas pegando no recém-nascido Adónis, junto à árvore de mirra, representando Mirra, a sua mãe, no meio de grande esplendor rural. Gravura de F Boucher (1703-1770)

Voltando um pouco aos Reis Magos, quem eram e donde vinham?. Vejamos o que nos diz Garcia de Orta na sua obra “ Colóquio dos Simples e Drogas da Índia”:

“… E porque Pico Mirandolano diz na sua Apologia, que mago em lingoa caldéa quer dizer sabedor, progunteilhe, pois que elle dizia que a escritura sagrada estava escrita acerqua deles em lingoa caldéa, que me dissesse que queria dizer mago; elle me disse que magoxi queria dizer naquella lingoa caldéa letrado e sabedor. E que destes eram os magos que vieram adorar a Nosso Senhor. E asi me dixe que nam eram reys estes homens, senão letrados grandes, assi nas estrellas, como nas outras cousas naturaes.”

A mirra teve as suas principais utilizações em cerimónias de culto, e nesse sentido, poderá estar a explicação para ser um dos presentes para Jesus, mas também foi usada para fins medicinais, isoladamente ou em compostos, e, como veremos, tem ainda hoje algumas aplicações tanto a mirra de que falamos, mas também outras resinas extraídas doutras plantas do mesmo género.

Namíbia – 2007 – Variedades de Commiphora

Hipócrates faz várias referências à sua utilização. No seu Livro III, diz: “ Quando há febre dá-lhe a beber uma mistura de suco natural de sílfio, oximel e cherivia, um electuário de gálbano, cominhos e mel e, depois, água de cevada fervida. Um doente assim não tem possibilidade de escapar, a menos que produzam uns suores críticos, sonos regulares, que evacue urina densa e ácida e que os humores cristalizem em abcessos. Que tome um electuário de grãos de mirra e ananás. Dá-lhe a beber pouco oximel e, se tiver sede forte, água de cevada”. (Nota: o sílfio é uma planta praticamente extinta, que existia na região da Grécia, contemporânea de Hipócrates, com larga aplicação tanto na preparação de compostos medicinais, como na forragem para o gado. O oximel é uma mistura de vinagre e mel, preparado em banho-maria).

Ainda no mesmo volume : “Contra as dores agudas e os humores: um dracma de sulfato de cobre e uvas. Depois de cozer dois dias, são escorridos. Misturar mirra e açafrão triturados. Expor ao sol e untar a pessoa que sofre de dores com este preparado que deve estar em recipiente de bronze”.

No Livro V “Das Epidemias”, Hipócrates aconselha “ Para os olhos: doze partes de escoria de metal, cinco de açafrão, uma de caroço de azeitona, uma de alvaiade e uma de mirra. Derramar água fria na cabeça e dar alho com pão de cevada”.

Na medicina Ayurveda a mirra era utilizada para tratar doenças do sistema nervoso e aparelho circulatório.

Alain Touwaide diz que há evidência textual e arqueológica que tanto o incenso como a mirra eram usados como substâncias medicinais, na antiguidade, nomeadamente no tratamento de doenças da boca e lepra.

RDA – 1981 – Papiros de Ebers

De acordo com os Papiros de Ebers, com cerca de 3 500 anos, uma das principais utilizações da mirra foi no embalsamamento dos corpos, técnica que teve grande desenvolvimento no Egipto, durante a terceira dinastia (2650-2575 AC), e que era assim descrito pelo historiador grego Heródoto: “ O embalsamador toma uma faca curva e com ele retira parte do cérebro, através das narinas, secando o restante com drogas. A seguir faz um corte ao longo do lado do corpo, com uma pedra afiada, e retira o conteúdo do abdómen, cuja cavidade é preenchida com mirra, cássia e outras espécies e o corpo é colocado em natron durante setenta dias” .Um dos efeitos da mirra era de secar o interior do corpo: mirrar. ( Nota: o natron é um composto mineral natural abundante numa zona do Egipto – o Vale de Natron. É constituído por carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sulfato de sódio e cloridrato de sódio).

Egipto – 1997 – Aniversário da descoberta do túmulo de Tutankhamon

Os egípcios, para além da sua utilização na preparação dos corpos para embalsamamento, usaram-na no tratamento de feridas, pelas suas propriedades antissépticas, e na forma de óleo no tratamento de pele como factor de rejuvenescimento.

Dioscórides (40-90 DC), médico grego, considerado por muitos, como o pai da farmacologia, e que serviu como médico militar no exército de Nero, faz várias referências à utilização da mirra no Livro IV do seu De Materia Medica. “ Na dor de ouvidos, utilizem-se umas gotas de óleo de amêndoas com sementes de Papaver (papoila), açafrão e mirra”. Para o tratamento de doenças dos olhos: “ Ferva-se erva de Parnasso em vinho, juntar mel e meia parte de mirra, pimenta e uma terça parte de incenso. Guardar em recipiente de bronze”. Para as mordeduras de víbora e outras cobras utilizava uma decocção de sementes de alfavaca, junto com vinho “a que pode juntar-se mirra e pimenta para o tratamento da ciática”. A mirra era ainda utilizada “junto com folhas novas de urtiga, para induzir o fluxo menstrual e tratar o prolapso uterino”.

Argélia – 1963 – Dioscórides

Plínio, o Velho (23-79 DC), utilizava um produto para higiene dos dentes a que chamou “dentifricum” composto por osso, corno ou conchas de moluscos, pulverizados ou calcinados, pó de pedra-pomes, e bicarbonato de sódio, misturado com mirra.

Amato Lusitano (1511-1568), refere-se nas Centúrias de Curas Medicinais, por várias ocasiões à utilização da mirra. Num caso descrito de embriotomia (VI Centúria, Cura LI), diz : “Aloísia, esposa de um capitão de navios dálmata, jovem e no nono mês de gestação fetal, estava com um parto difícil. Após dois dias de cruciantes dores e tormentos sentiu tais ânsias que todas as mulheres assistentes julgavam que ela estava prestes a morrer. Chamado para a ver, depois de todas as parteiras se terem cansado, tivemos especial cuidado em lhe prestar ajuda. Para começo demos-lhe logo a beber o seguinte: R.: de croco, uma dracma; de cinamomo, uma dracma e meia do segundo; de súcino branco, dois escrópulos; de trociscos de mirra, meia dracma: Esmague-se cada um por sua vez e deles se faça um pó muito fino, de que bebeu de uma vez, uma dracma misturada com vinho de Creta. Nos intervalos era-lhe dado caldo de capão ou picado feito da carne dele ou um ovo de sorver, para aguentar as forças”.

Amato tem outras descrições da utilização da mirra no parto ou para favorecer o fluxo menstrual. “A estes casos, é de ajuntar o que em dias anteriores aconteceu a uma mulher que habitava a escada de S, Ciríaco. Andava pejada e, no quinto mês, teve um aborto de menina, após o qual não expulsou as secundinas. Não tinha dores, não tinha febre, nem ânsias, mas o ventre estava inchado como dantes. Por isso afirmei que dentro se ocultava outro feto. De qualquer maneira os assistentes da mulherzinha estavam principalmente preocupados com a extracção das secundinas dando-lhe rodinhas de mirra, com açafrão, em vinho e alguns remédios feitos de sabina, de ruiva dos tintureiros, de poejo, ourégão, de calaminta e semelhantes. Na noite seguinte deu à luz outra menina e depois saíram as secundinas, mas nessa altura sentiu-se pior. Finalmente, no dia seguinte , deitou fora um fragmento tendo semelhança com a cabeça dum galináceo, e ficou imune”. Noutra situação e para aceleração do parto, escreve: “ A esposa do insigne músico Pharasi, de nome Pinta, há já três dias que procurava dar à luz uma criança com sofrimento e, para lhe darmos o nosso auxílio, chamaram-nos. Depois de muitos tratamentos feitos e engendrados pelas parteiras, demos-lhe a beber o seguinte remédio: R.: de cinamomo muito bom, de trociscos de mirra, de croco muito bom, ana, meia dracma. Triture-se tudo muito bem e muito fino. Feito um excipiente com vinho generoso, dê-se-lhe a beber. Tendo tomado e repetido esse medicamento, deu à luz duas meninas, completamente amarelas. A cor causou grande admiração às mulheres assistentes. Por isso esclarecemos que esta cor tinha sido causada pelo croco bebido, pelo que, as meninas, lavadas, se tornaram brancas”. (V Centúria Cura XXXIV) )Nota – croco é o nome de uma planta da família das Iridaceas, que aqui se deve referir ao Crocus Sativus, donde se extrai o açafrão).

A mirra está, portanto, ligada a várias utilizações desde a antiguidade. Está, também ligada à vida de Jesus. No nascimento, como uma das oferendas recebidas, mas também após a sua morte na preparação do corpo :

E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés. Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com as especiarias, como os judeus costumam fazer, na preparação para o sepulcro”. João 19:39,40

E hoje? Continua a ser utilizada? Para além de, sobretudo sob a forma de óleo, ser muito utilizada na preparação de produtos cosméticos, mantém algumas aplicações no tratamento de alguns problemas de saúde. Por exemplo no tratamento da estomatite aftosa recorrente, sob a forma de gel ( Journal of Oral Pathol. Med. – 2014). Estas propriedades parecem ser devidas aos terpenoides, que fazem parte da sua composição. Outros extractos de plantas do mesmo género mostraram-se efectivos e seguros no tratamento da schistosomíase, em casos de falência do praziquantel. (American Society of Tropical Medicine and Hygiene – 2001 )

A inalação dos ´vapores produzidos pelo óleo de mirra é ainda usada como tratamento de afecções respiratórias altas nalguns países do médio oriente.

UK – 2015 – Pormenor de FDC, alusivo ao Natal, com carimbo de Bolton alusivo à existência de uma “Rua Mirra”

A mirra teve grande importância prática e simbólica e, por isso, ocupa o lugar de destaque num episódio de grande importância na tradição Cristã, que é a Adoração dos Reis Magos.

António Filipe

Rita Filipe

Natal 2015 – Dia de Reis 2016