António Filipe

A Barragem de Bitetos

Lembrar-se-ão os mais velhos, sobretudo os que têm as suas origens em Bitetos, de ouvir os pais contar que lá pelos anos 20 do século passado, andaram por Bitetos uns “engenheiros” a fazer estudos para a construção de uma barragem. De facto, esteve prevista essa construção, houve estudos, orçamentos, uma maquete, que abaixo se reproduz, mas a Barragem de Bitetos nunca chegou a ser construída. E não ia ser coisa pequena.

Depois de construída a Central de Ricobayo em Espanha, “a Barragem de Bitetos valeria tanto como todo o sistema do Zêzere, cerca de duas vezes Castelo do Bode, mais do que todo o sistema Rabagão/Cávado, tanto ou mais que três vezes a Barragem do Lindoso, tanto ou mais que três vezes o sistema do Paiva, quasi tanto como algumas barragens do Douro fronteiriço, mais do que qualquer central possível no Tejo, Sado ou Guadiana. É um dos maiores aproveitamentos hidro-eléctricoas do paíz”. (Ezequiel de Campos)

A Barragem de Bitetos valeria tanto como todo o sistema do Zêzere, cerca de duas vezes Castelo do Bode, mais do que todo o sistema Rabagão/Cávado, tanto ou mais que três vezes a Barragem do Lindoso ...

Ezequiel de Campos

Esta é a maquete apresentada pelo Engº Ezequiel de Campos, na altura Director dos Serviços Municipalizados do Gás e Electricidade do Porto, o grande entusiasta da obra e o seu maior defensor. Na imagem podemos ver que o açude seria construído sensivelmente entre a Venda Nova e o penedo do Cerejo.

Então qual é a cronologia desta história? As observações diárias para estudo do regime do Douro em Bitetos, começaram em 17 de Agosto de 1921, foram interrompidas em 19 de Janeiro de de 1922 e recomeçaram em 14 de Agosto de 1922, prolongando-se até 1932. Estava ainda na memória recente a grande cheia de 1909 (5 de Dezembro) – a segunda maior, de que há registo, a seguir à de 23 de Dezembro de 1739 – e cujas consequências permitiram ser levadas em conta no projecto. As observações feitas levaram a considerar sete perfis transversais em Bitetos e um no Areio dos Bêbados (um pouco a montante da Ribeira de Valdarica). O objectivo da obra era o fornecimento de electricidade ao Porto, e a uma parte significativa da região litoral norte.

Mas o projecto tinha também opositores. Sobretudo os que achavam que a melhor solução seria a construção de uma central termica, na Estação do Freixo, mais próxima da cidade do Porto, e que poderia aproveitar o carvão extraído das jazidas do Pejão e S. Pedro da Cova.

Para a Barragem de Bitetos poder ser construída, teria que apresentar um parecer favorável dum gabinete idóneo estrangeiro, o que viria a acontecer em 30 de Dezembro de 1927, véspera do prazo limite, pela firma Motor Columbus de Baden, Suiça, que afirmava ser a obra de Bitetos, “tecnicamente exequível”. Este parecer foi criticado pelos opositores, por acharem que ser exequível não era suficiente para a sua construção, dizendo que “se as Pirâmides do Egipto foram construídas, não há obra de engenharia que não possa ser feita”. Mas, passado algum tempo, a mesma empresa apresenta um novo relatório em que compara a hipótese de Bitetos, com a construção de uma barragem no Cávado e dá um parecer mais favorável a esta. Um dos grandes opositores da barragem de Bitetos foi o dr. Alfredo Magalhães, médico, político e que viria a ser Presidente da Câmara Municipal do Porto, que estava mais preocupado com o preço a pagar pela energia, pelos munícipes do Porto. Mas o engº Ezequiel de Campos não desistia e, já em 1934, depois do projecto de Bitetos ter sido praticamente posto de lado, dizia que “Fazer Bitetos é muito simples: um engenheiro que tenha alguma prática de trabalhos, e que tenha estudado e visto por esse mundo obras similares e vários estaleiros dessas obras em construção, organiza o estudo definitivo de Bitetos em seis meses, com sondagens apropriadas e tudo; em mais um ano prepara o começo dos trabalhos; com mais três anos e meio, acaba-os todos.; e à meia noite de 30 de Junho de 1939, inaugura-se”. Alfredo de Magalhães tinha uma opinião diferente: “Na tragi-comédia de Bitetos e no processo tenebroso do UEP (União Eléctrica Portuguesa), está o nó da questão que pretende escravizar à Espanha toda a economia portuguesa”. Mas parece não haver dúvidas da capacidade de fornecimento desta central, porque como a mesma Motor Columbus afirmou no seu parecer “mesmo tomando em consideração toda a região noroeste de Portugal, decorreriam ainda muitos anos, para além de 1935, até que toda a energia que as centrais hidráulicas de Bitetos, ou de Vila Nova (Cávado), possam produzir, seja absorvida”. Chamadas a dar opinião duas companhias inglesas, a British European Consolidating Trust e a Electric and General Industrial Trust, puseram em causa a viabilidade da construção da Barragem de Bitetos. E o projecto acabaria por ser abandonado. O problema do fornecimento de energia, e este processo das várias hipóteses estudadas, haveria de ter, à época, repercussão na imprensa, nos maiores jornais. Curiosamente não vimos no jornal da nossa terra, “O Marcoense”, pelo menos até 1927, qualquer referência, o que não deixa de ser estranho, em face da grandeza da obra.

O que perdeu Bitetos? Não ver o seu nome associado a uma grande obra pública. Para a economia local o benefício teria sido fugaz, e não sabemos se , a médio prazo, poderia até ser prejudicial. Não parece que nas periferias das barragens construídas seja notável um desenvolvimento acentuado. Tudo teria ficado diferente.

Nota: Para os mais curiosos, as obras abaixo referenciadas, nomeadamente a do Engº Ezequiel de Campos têm dados técnicos, económicos e estudos de viabilidade que poderão interessar, mas que não fazia sentido apresentar num pequeno artigo, que tem como única finalidade avivar memórias.

(Segundo o antigo acordo ortográfico)

Bibliografia

Campos, Ezequiel de – Bitetos - Empreza Industrial Gráfica do Porto, Lda – 1932

Magalhães, Alfredo de – Em Defesa do Porto – Ed. Autor – Porto - 1937

António Filipe
Médico
Reside em Alpendorada, Várzea e Torrão