Jorge Guedes

Os lavadouros comunitários

Os tanques comunitários, ou lavadouros comunitários, são locais simbólicos. Estes lugares de muita memória que hoje parecem estar irremediavelmente condenados ao abandono, deveriam ser tidos em conta, no seu cadastro e na promoção simbólica das muitas histórias ali ditas e que o silêncio hoje tenta contar.

Seja na “água fria, da ribeira, água fria que o sol aqueceu”, como imortalizou na sua cantiga a Betriz Costa, seja nos tanques com torneira de abastecimento, aproveitando nascentes ou passagems de cursos de água, os lavadouros públicos, para além dos fins a que se destinavam, serviam de ponto de encontro das mulheres em momentos de convívio social, enquanto esfregavam lençóis e faziam o curioso exercício, de duplo significado, que era “lavar a roupa suja em público”. Aliás, este exercício ainda hoje é promovido, mas de outras formas.

Era o ponto de encontro das mulheres do lugar, enquanto não surgiu a água canalizada e as máquinas de lavar. A tarefa de lavar a roupa era demorada, pelo que muitas histórias socias eram aqui proferidas.

Recordo-me da minha avó paterna na sua rotina matinal ou de princípio de tarde junto do tanque público de Mondim, na então freguesia de Alpendorada e Matos. Era pouco de “lavar roupa suja em público” no sentido figurado, mas naquele espaço comunitário lavava a roupa que a sua família sujava, enquanto eu me deliciava a escutar as conversas laterais e abservava, entusiasmado, os “cabeçudos” a nadar nas águas límpidas da ribeira que sustentava o tanque.

A variedade de lavadouros na nossa freguesia é muito interessante pelo que deveriam progressivamente ser transformados em elementos turísticos e históricos. Aliás, para os amantes dos percursos pedestres seria bem aceite a criação de rota dos lavadouros comunitários.

O valor arquitetónico de alguns, mas acima de tudo a memória de todos estes locais merece ser perpetualizada.

Muitos bons exemplos existem na recuperação destes espaços, desde a reativação para o seu fim original, à criação de espaços de obras de arte pública ou até a simples preservação patrimonial.

Fica o desafio.

Jorge Guedes
Licenciado em Eng.ª Electrotécnica, Instrumentação e Computação
Natural e residente em Alpendorada, Várzea e Torrão